sábado, 3 de dezembro de 2011

O insustentável peso da internet!




Existe uma impressão pela internet afora que as pessoas que defendem uma gestação e parto naturais, maternidade por apego – e sua consequente cama compartilhada, amamentação prolongada, etc. – o fazem apenas para mostrar que são melhores que as outras, não que asescolhas são melhores para as crianças.
Fica parecendo que as defensores do pacotão acima fazem parte de um seleto clubinho, e que suas decisões são feitas baseadas em um achismo acusatório, eu faço porque acho melhor e quem não faz está errado. E aí não se pode falar sobre o assunto sem ofender as mães que optaram por fazer diferente. É preciso falar com tato, porque um assunto tão pessoal pode ofender outra pessoa. E curiosamente, numa via de mão única, não se pensa duas vezes em falar que “tudo bem não amamentar, eu não tive leite e meu filho é saudável” para uma mãe que está lutando contra uma mastite ou um fungo, e insiste em amamentar.
Então para sustentar um tópico contra-hegemônico é necessário estar bem embasado. Eu não posso discutir com o pediatra do meu filho sobre livre demanda se eu não tiver argumentos que sustentem essa decisão. Eu também não posso me colocar na linha de frente de defesa de uma série de decisões a respeito da maternagem se eu não tiver como defendê-las. Então, atrás de toda cama compartilhada, há um artigo (ou vários) que a sustentem. Para se fazer entender dos motivos de uma mãe estar chateada com sua cesariana desnecessária, é preciso apresentar inúmeras evidências para justificar o sentimento.
Passamos de simplesmente estatar um fato a ter que colocá-lo de forma palatável para não ofender as mães mais sensíveis. Então não se pode simplesmente falar que o parto natural é melhor (e ele é), porque 52% das mulheres do Brasil não pariram e se sentem ofendidas com isso. Não se pode falar que amamentação exclusiva (e prolongada) é melhor, porque a amamentação no Brasil dura em média 54 dias. Não se pode falar que a cesariana eletiva faz mal ao bebê porque bem uns 75% das mulheres da rede particular optaram por ela. E “não são menos mãe por isso”.
Mesmo se ninguém estiver falando sobre a escolha de seu ninguém, soa como ofensa. Se eu digo que uma cesariana eletiva faz mal ao bebê pelo (alto) risco de prematuridade, pelo (alto) risco de desenvolver problemas respiratórios, pelo fato do nascimento inesperado ser um trauma para o RN (fato) e que isso possa ter consequências neurológicas mais adiante (probabilidade), eu magôo as pessoas. Mesmo se estiver simplesmente narrando fatos (e justamente porque estou narrando fatos, pois eles são argumentos lógicos e fazem as pessoas questionar as próprias escolhas).
E aí sobra o que? Falar sobre a minha experiência com as minhasescolhas, correndo o risco de resvalar no argumentum ad hominem. E aí mesmo estando falando sobre fatos, eles são desacreditados, porque como eu disse lá em cima, fica parecendo que eu sou melhor do que quem não faz como eu. E em vez de questionar “Ué? Mas como ela conseguiu parir em casa sem uma UTI na porta?” ou “Gente! Ela educa os filhos sem bater”, sobre a acusação: “Ela é metida, pariu em casa só para esfregar na cara das pessoas.” ou “Claro que não bate. Fica em casa o dia inteiro por conta dos filhos, eles já aprenderam a mandar nela.”
E às vezes bate uma canseira, sabe? Porque na verdade verdadeira, os comentários bacanas são muito mais frequentes. Diariamente recebemos depoimentos sobre como descobrir o blog fez alguma pessoa repensar diversas decisões de sua vida. Ou vemos as pessoas tomando consciência sobre a violência praticada no atendimento obstétrico. Ou recebemos pedidos de dicas de obstetras favoráveis ao PN, ou de consultoras de aleitamento, porque essa é a nossa intenção: ajudar quem quer ser ajudado. Mas quando alguém se sente inseguro com as decisões que tomou e nos coloca como bode expiatório, pesa muito.
Aí eu escrevo esse post-desabafo, e a canseira passa. Ufa!
Imagem: Amber Dusick.

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