quarta-feira, 12 de maio de 2010

Mecônio é sinal de sofrimento fetal??












Muitas mães tem pânico em ouvir falar de mecônio. Mecônio é o cocô verde que o bebê libera nos primeiros dias de vida, e algumas vezes na barriga da mãe. Quem nunca ouviu uma vizinha contando que o bebê da sobrinha engoliu mecônio, que o bebê da neta aspirou mecônio, que o médico marcou a cesárea porque o bebê tinha feito cocô na barriga...

Vamos desvendar os mitos agora!

Há dois motivos para eliminação de mecônio durante a gravidez: MATURIDADE FETAL, porque o intestino está funcionando a contento, o que é um bom sinal, e SOFRIMENTO FETAL, porque quando o feto está mal oxigenado aumenta a contratilidade dos intestinos e relaxam-se os esfíncteres (como quando estamos em uma situação de estresse).

Em um feto bem oxigenado, que elimina mecônio apenas porque está maduro, sua presença não traz maiores (aliás, nem menores) problemas. Esse feto maduríssimo e pronto para evacuar a cada instante também urina dentro da barriga. A urina é a principal fonte de produção do líquido amniótico, e quanto mais líquido mais fácil fica de o mecônio se diluir. Um bom volume de líquido amniótico indica que os rins fetais estão funcionando a contento, bem perfundidos (ou seja, o sangue chega lá e irriga bem os rins). Esse mecônio diluído dá o aspecto que chamamos de "tinto de mecônio" ou "mecônio fluido". Aí, também, sem repercussões desfavoráveis. Evidências ultra-sonográficas sugerem que o feto pode evacuar algumas vezes dentro do útero e, ao nascimento, encontrar-se líquido CLARO,

Se o líquido amniótico está diminuído, não há como diluir o mecônio, aí temos o MECÔNIO ESPESSO, podendo mesmo assumir o aspecto característico de papa de ervilhas". A preocupação nesse caso é com o motivo pelo qual o mecônio está espesso, porque o líquido amniótico pode estar diminuído fisiologicamente no final da gravidez e nas gestações pós-termo (que ultrapassam 42 semanas) ou por insuficiência placentária, reduzindo o fluxo sanguíneo para os rins fetais.

O risco de aspiração do mecônio e desenvolvimento de um quadro de pneumonite grave (Síndrome de Aspiração Meconial) é a maior preocupação nesses casos de mecônio espesso. Entretanto, o quadro só ocorre em bebês em sofrimento, que fazem movimentos de 'gasping' dentro do útero e, ao nascer, não têm os mecanismos fisiológicos para 'clarear' o mecônio.

Bebês hígidos, saudáveis, podem até aspirar mecônio mas os mecanismos pulmonares normais entram em ação para eliminar esse mecônio.

Concluímos, portanto, que o fundamental é distinguir se o bebê se encontra ou não em sofrimento. A ausculta dos batimentos cardíacos fetais (BCF) continua sendo a forma não-invasiva mais eficiente de se monitorizar o bem-estar fetal, podendo ser realizada de forma intermitente (com o sonar Doppler) ou contínua (pela cardiotocografia). Uma boa ausculta fetal durante o trabalho de parto é tranquilizadora. Se há alteração dos batimentos e a freqüência cardíaca fetal assume um padrão "não-tranquilizador", está indicada a antecipação do parto, que pode ser por cesariana ou, se o evento ocorre no período expulsivo, através de fórceps ou vácuo-extração.

Alguns estudos apontam para um possível efeito benéfico da amnioinfusão(instilação de soro na cavidade amniótica por via cervical), no sentido de prevenir as desacelerações freqüentes nos casos de oligo-hidrâmnio, porém ainda não há evidências suficientes para apoiar sua indicação rotineira. De acordo com a revisão sistemática da Cochrane, o procedimento pode levar a redução das taxas de cesariana por 'sofrimento fetal'.

Esse texto foi escrito pela Dra. Melania Amorim, Obstetra renomada e completamente a favor do Parto Humanizado.

2 comentários:

  1. Minha irmã nasceu com três voltas de cordão no pescoço. É engraçado pensar que o feto não respira dentro da barriga. A história foi assim: a bolsa rompeu e a água estava escura (não sei se verde, minha mãe sempre contou que estava "escura". Isso se passou em Fevereira de 1949). Bom, houve um apavoramento geral e ela foi cesariada de urgência URGENTÍSSIMA. Disseram que minha irmã estava ROXA quando nasceu, não sei de mais detalhes, já que as voltas em redor do pescoço não geram asfixia e a evacuação dentro da bolsa indica apenas que o nenê está maduro. Agora, com pai e mãe já falecidos, não há como saber ao certo, mas minha irmã tem muitos traumas e desenvolveu TOC e pânico por volta dos dez, onze anos de idade.
    Fico pensando que, se o quadro não era tão grave assim acabou se tornando, pelo apavoramento geral que a extirpou na correria de dentro do útero. Minha pergunta: naquela época - Fevereiro/1949 - o que já existia em termos de detecção de sofrimento fetal? (batimento cardíaco do feto, etc...) Vai ser ótimo se puderem dar resposta a isto, parabéns pelo site Doula!

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  2. A medicina muda sempre, sempre atualizando e fazendo novas descobertas. Eu não sei como era em 1950, mas eu duvido que o quadro dela hoje esteja relacionado com a cesareana. Outra coisa é que é impossível saber o que é necessário ou não sem ler um prontuário! As pessoas as vezes não sabem detalhes importantissimos ou até esquecem.
    O que é importante saber hoje, é que o mecônio não significa necessariamente ''sofrimento fetal''. Beijos

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